Em sua coluna essa semana, o ex-vereador Messias Gonzaga enaltece o espírito de resistência do povo feirense e relata o papel da esquerda, na cidade, durante a ditadura militar, e a perda da hegemonia para a direita. “Este círculo de dominação está chegando ao fim, melancolicamente, e com isso surge a grande oportunidade de que a nossa Feira de Santana guerreira seja devolvida”, diz. Messias escreve no Protagonista às segundas-feiras.

“O título desse artigo tem o objetivo de trazer à tona um pedacinho da importante história da cidade de Feira de Santana para que as pessoas de até 60 anos possam entender o que aconteceu e está acontecendo com este município. No início da década de 60, Feira de Santana ainda pequena e em expansão, teve a grata satisfação de ter como seu prefeito Francisco José Pinto dos Santos, ou simplesmente Chico Pinto, eleito num pleito concorrido com João Durval Carneiro. O Brasil fervilhava politicamente com a direita desejosa de usurpar o governo do presidente João Goulart, mais conhecido como Jango, que promovia reformas mais populares. E, em 31 de março de 1964, o golpe foi consumado, se implantando a ditadura militar que tantos malefícios causou ao país. Em Feira, o prefeito Chico Pinto, um político avançado, governava de maneira revolucionária, implementando projetos de infraestrutura e pioneiros. Os comunistas participavam desse governo, e com o golpe a ditadura se abateu raivosamente por aqui com centenas de acusações, prisões e torturas, culminadas com a deposição do prefeito e sua prisão. Feira de Santana resistiu bravamente ao golpe. Foi uma das últimas a cair e quando isto ocorreu uma resistência do seu bravo povo continuou, e Feira de Santana ficou famosa no Brasil inteiro como a cidade da resistência. Era a trincheira da oposição. Os prefeitos pós-golpe, de oposição à ditadura, administravam sem apoio do Estado, muito menos dos generais sentados na cadeira de presidente. Era motivo de orgulho ser feirense. Mas, como nada é eterno, esse tempo passou e a brava gente feirense, cedeu e permitiu o retrocesso. Prefeitos da direita ascenderam ao poder e mancomunados com governadores também de direita, governaram como os governantes de direita sempre governam: para os seus agrupamentos políticos, desprezando os interesses da população. E Feira de Santana parou no tempo. Tornou-se um feudo da elite dominante, ocupando os postos de comando, promovendo apenas o clientelismo político que aprisiona e engana as massas. Mesmo com o crescimento econômico ocorrido a população não se beneficiou e os mesmos personagens da elite e do poder político nadaram de braçadas, criando uma brutal concentração de rendas e uma cidade empobrecida. Para esconder essa realidade, algumas obras de fachadas foram construídas sem que houvesse melhoria na qualidade de vida do povo. E outras anunciadas com pompa e apenas iniciadas e abandonadas sem maiores explicações, numa demonstração de pouco caso com os recursos públicos. Este círculo de dominação está chegando ao fim, melancolicamente, e com isso surge a grande oportunidade de que a nossa Feira de Santana guerreira seja devolvida, ou melhor, reconquistada, para que possamos novamente nos orgulhar de sermos feirenses”.

Messias Gonzaga é bioquímico e ex-vereador.