Para o historiador e professor Jhonatas Monteiro, do PSOL, o papel da oposição não deve se resumir ao período eleitoral. É um caminho que deve ser alicerçado dia a dia e que passa pelo envolvimento mais profundo com os problemas enfrentados pela população. No entendimento de Jhonatas, o PSOL tem buscado esse caminho e os resultados são positivos. É a segunda parte da entrevista feita pelo Protagonista.

O Protagonista – Por que a oposição não consegue eleger um prefeito em Feira de Santana nas últimas duas décadas?

Jhonatas Monteiro - A questão das eleições em Feira e o papel que uma oposição tem não se resumem àquilo que está posto no momento eleitoral, né? A eleição é uma parte, e talvez seja essa primeira questão aí para discutir o sucesso ou não da oposição, por exemplo. Embora a gente ainda não tenha conquistado cargos eletivos no município, eu acredito que o PSOL é muito bem-sucedido em certos aspectos. Saímos de um universo onde as pessoas não conheciam nenhuma outra alternativa política, a não ser as mesmas de sempre, e passaram a entender que existe um outro caminho possível para Feira de Santana e para a sociedade brasileira. E, nesse sentido, é uma forma de sucesso. Agora, evidente, a disputa que eu disse tem a ver com desmontar um projeto conservador que faz com que o município cresça, mas piore do ponto de vista da qualidade de vida das pessoas, da maioria da população em sua diversidade. Cresça excluindo as pessoas, ao invés de incluir. Como sempre digo, Feira está entre as 100 cidades mais ricas do Brasil – em contexto de mais de 5000 no país –, mas a maioria das mulheres e homens que vivem aqui estão longe dessa riqueza. Inclusive, nem acreditam nesse dado porque convivem com problemas públicos básicos, como a rua esburacada ou às escuras. Dessa forma, o projeto que guiou o governo feirense de 2000 até aqui, já que na prática é o mesmo grupo político, é conservador porque pensa o crescimento do município para conservar os lugares de privilégios de sempre. José Ronaldo não passou de síndico dessa política e, ao que parece, agora Colbert se dispôs a ser o fantoche dela. 

O Protagonista – E como mudar isso?

Jhonatas Monteiro - Nesse sentido, a disputa política tem um papel mais amplo que disputa eleitoral. Deve ser o papel que é mais cotidiano, que tenha a ver com a relação com as muitas coisas que se processam no dia-dia de Feira – E não só aquelas que têm uma visibilidade, que chegam a um nível de expressão nas redes sociais. Temos episódios recentes que, de algum modo, marcaram esses enfrentamentos e em alguns momentos tiveram evidência. Esse é o caso do equivocado BRT, do dito “Shopping Popular” e seu impacto destrutivo sobre o Centro de Abastecimento, questões ligadas à péssima qualidade e alto preço do transporte coletivo, vez por outra uma questão ligada às fraudes em contratos na área da saúde e uma série de outros problemas. São coisas que a gente vê com expressão nas redes, mas tem um conjunto de outros aspectos que afetam a vida do povo que sequer ganham visibilidade aí. São coisas que mostram a arbitrariedade do governo municipal, como a truculência diária do “rapa” contra os ambulantes, a ameaça de demolição de casas e expulsão de moradores na Barroquinha ou o humilhante isolamento imposto em várias comunidades rurais no período de chuvas todo ano. Isso não ganha visibilidade nem da mídia mais convencional e nem mesmo nas redes que, muitas vezes, são predominantemente pautadas por uma ótica de uma classe média que circula por áreas centrais do município e que não reflete aquilo que é a realidade da maior parte de Feira de Santana. Nesse aspecto, o papel que a gente precisa ter é a conexão justamente com esses outros lugares que às vezes são invisíveis. Isso significa um trabalho de organização popular que é mais permanente. Mais necessário ainda agora que estamos sob ataque do governo de extrema-direita de Bolsonaro, colocado no poder para retirar direitos e disposto a estimular todo tipo de violência contra quem luta por uma sociedade justa. Para superar isso, mais que em qualquer momento recente, essa conexão é a prioridade. 

O Protagonista – E como o PSOL se insere nesse contexto?

Jhonatas Monteiro – Então, se a gente observar o PSOL no município vai perceber que temos um nível de atividade enquanto partido, enquanto força política, que não se resume ao ano eleitoral. Na verdade, em todos os anos, em diferentes momentos do ano, nós fazemos atividades, sejam de formação, sejam de panfletagem, sejam atividades de discussão em um determinado bairro ou em uma determinada localidade, e me parece que é esse o trabalho que tem que ser feito. Afinal de contas, na eleição você não vai desmontar esse esquema que envolve um processo pesado cooptação de lideranças comunitárias. Envolve também uma estrutura empresarial perversa, porque o projeto político que está vigorando é conivente com os interesses mais mesquinhos desse setor – interessado em lucrar no curto prazo, mesmo que para isso tenha que aterrar e destruir uma lagoa, como vemos tanto em Feira. Em especial, envolve aí um amplo esquema mafioso de negociação, de direitos como se fossem favores, e que no limite tem a ver com a própria sobrevivência de muita gente no município. De forma generalizada, infelizmente, a comercialização de exames e consultas em troca de apoio político nas eleições. Além disso, quando eu digo “sobrevivência” é porque tem a ver não com um ou dois empregos, mas milhares de empregos municipais que são negociados politicamente. Embora, quando isso aparece no debate público haja a exigência de provas, é um “segredo” que não é segredo para ninguém em Feira de Santana. Então, é conversa fiada que o domínio político de José Ronaldo é por causa da sua “popularidade”. É uma figura historicamente dependente desse esquema. E isso precisa ser combatido e não vai ser combatido pura e simplesmente no momento das eleições, nos 45 dias em que o processo eleitoral acontece. Então, é nesse sentido que o PSOL tem intensificado suas ações.

O Protagonista – E como avalia os resultados?

Jhonatas Monteiro - Nós avaliamos que os resultados eleitorais que tivemos já passam, de algum modo, a impressão de acerto desse entendimento e isso precisa ser reforçado agora com uma presença visando não só 2020, mas, especialmente, um outro rumo para o município que vá além das próprias eleições. É isso que nós temos feito, mesmo sabendo que andamos ainda muito aquém daquilo que precisa, efetivamente, ser feito. Mas, sem dúvida nenhuma, nós avaliamos que estamos no caminho correto daquilo que precisa ser defendido em Feira de Santana, de quem precisa ser defendido, e, especialmente, de como essa defesa precisa acontecer: mobilizando as pessoas que sentem na pele, no seu dia-dia, a exploração, a opressão e a negação dos seus direitos. Esse é o sentido de “mudar Feira pelas raiz” que nós apresentamos lá, algum tempo atrás, no ano 2012, e me parece que continua fortemente válido. É com esse espírito que nós vamos enfrentar esse período que vai até a eleição de 2020 e além dela