O colega que chora, o estudante homossexual, a menina com trejeitos ditos masculinos. Alunos com estes perfis certamente integram escolas em toda Rede Municipal de Educação de Feira de Santana. Incerto é se eles têm ou não a devida liberdade para ser como melhor se reconhecem. Isso por conta de dois hábitos sociais hegemônicos discutidos durante o encontro de formação de professores da área de História, na última terça-feira (24): a masculinidade tóxica e a homofobia.
Para o debate, foram convidados os professores Kleber Simões, doutorando em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal da Bahia, e Daniela Nascimento, mestra em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismos também pela UFBA. Ambos discorreram sobre como determinados comportamentos reproduzem violências que tendem a oprimir e excluir os estudantes e também professores.
Segundo Daniela, gritar com o professor, falar alto, bater a porta, arremessar o caderno sobre a mesa antes de alertar que não realizará a atividade proposta são comportamentos que denunciam a tentativa constante de autoafirmação enquanto detentor de uma força que precisa ser imposta em relação aos demais, inclusive ao professor; mais ainda à professora.
Kleber aponta como é nítido dentro das próprias escolas o quão fechado é esse mundo masculino. “Você só pode fazer parte de um grupo se apresentar os comportamentos padrões autorizados por eles”. Daniela complementa. “O discurso é muito forte, a negação do feminino. ‘Não sente como uma mulherzinha, não fale como uma mulherzinha, não se comporte como uma mulherzinha’”.
Ela destaca que nem sempre o aluno que reproduz esses comportamentos o faz por que o quer ou por que o acha certo. “Como a condição para fazer parte desses grupos é agir de tal forma, eles acabam reproduzindo coisas que nem sempre condizem com o que pensam. Se você for mais sensível, um cara que chora, que ‘escape’ desses padrões autorizados, você acaba ficando fora do grupo”, aponta a professora.
Kleber chama atenção para o fato de que estas opressões se estendem também a professores homossexuais. “Já ouvi relatos muito difíceis de colegas sobre experiências vivenciadas em salas de professores – verbalização, expressões de violência dentro da categoria... A escola deve ser um lugar de justiça social pra todos. Não somente para os estudantes. Temos que criar um lugar com um ambiente equânime, em que todos se sintam pertencentes”, destaca.
“Se a escola é o espaço de socialização, essa socialização deve se dar a partir da justiça social e reconhecimento da diferença como elemento fundante da pessoa humana. Se existe um comportamento padronizado, normatizado, a escola tem que problematizar isso, por que todos têm que ser aceitos em suas diferenças”, orienta.
O TEMA - O tema foi escolhido pelos próprios professores da disciplina de História no início do ano, quando realizada uma enquete entre eles para seleção de dois assuntos que deveriam ganhar mais atenção este ano – o outro foi a intolerância religiosa. Ambas fazem parte do calendário de atividades complementares formativas estabelecido pela Secretaria Municipal de Educação. Vários conceitos foram discutidos no encontro. Dentre eles, patriarcado, sexismo, desigualdade de gênero, homofobia, heteronormatividade, entre outros.
Segundo Daniela, não há caminho pronto para o combate à homofobia e à masculinidade tóxica, mas todo professor, independente da disciplina que leciona, tem papel fundamental neste percurso. “Nas aulas de História é preciso indicar que os movimentos históricos não são lineares, pois são fluidos, mudam ao longo do tempo. Contudo, se observarmos, o poder masculino branco e heterossexual sempre esteve mais atuante no mundo político, econômico, social, religioso, impondo discursos, sistemas de poder, excluindo as mulheres e colocando-as como o segundo sexo”, aponta. (Texto e foto: Secom)