Na série de artigos sobre o cenário político para as eleições municipais de novembro em Feira de Santana, no Protagonista, o jornalista e escritor Glauco Wanderley analisa as chances dos pré-candidatos lançados até agora. Para ele, se aproxima a eleição mais imprevisível desde 1996. Confira abaixo:

Quando governou em nome do grupo de José Ronaldo, por natureza ou estratégia política burra, Tarcízio Pimenta oscilou entre ser fiel e dar o grito de independência, associando-se ao governo do estado ou tentando uma trilha própria.

Colbert Martins Filho não. Manteve fidelidade canina. Nem por isso mereceu tratamento VIP, tendo que esperar declaração de apoio do comandante no limite dos prazos eleitorais para definição de candidaturas.

Ronaldo apoia Colbert, depois de "muita reflexão", depois de "ouvir muito, prós e contras", grande parte destes palpiteiros querendo algum outro nome, porque para eles o candidato à reeleição é antipático.

Mas o generoso Ronaldo bem sabe que para ser prefeito não é preciso simpatia, então tomou sua decisão. É patético, mas está tudo lá gravado, nas redes sociais do ex-prefeito, testemunhado por milhares, que assistiram o programa de duas horas na internet.

É de se imaginar que este apoio cheio de mas, porém e todavia, tenha um custo eleitoral para Colbert, candidato de votações descendentes nas seguidas eleições que disputou.

Nem por isso o ronaldismo é uma força a ser menosprezada. Esse papo de desgaste é repetido a cada eleição municipal e quando os votos são contados verifica-se que ficou só na vontade da oposição.

Feitas as ressalvas, me parece de qualquer modo indubitável que esta eleição terá emoções mais fortes que as anteriores.

O que pode fazer diferença são as fissuras no próprio ronaldismo. Geilson e Targino Machado pularam do barco e se juntaram. O potencial da dupla é muito maior, por exemplo, do que o de Jairo Carneiro, que em 2016 o governo do estado tentou sem sucesso resgatar do passado para pelo menos embaralhar o jogo, mas na prática não fez diferença alguma.

Se o ronaldismo rachar mesmo, pode espalhar voto para todo lado, beneficiando por exemplo o vereador Roberto Tourinho, que o PSB apresenta como opção. Este teria alguma chance se o eleitor de fato quiser romper com o ronaldismo sem aderir ao petismo.

Nas quatro eleições que disputou para a prefeitura, apesar de ser o principal antagonista do cacique Ronaldo, o hoje deputado federal Zé Neto demonstrou ter um teto muito baixo. Agora, baseado em pesquisas internas, o político mostra-se confiante. Mas estas, se eventualmente o colocam na liderança, não dão qualquer margem de segurança, coisa que Ronaldo e seus aliados tiveram sempre desde o ano 2000.

Além das variáveis políticas, 2020 será diferente também porque traz a inédita situação da pandemia do coronavírus, que mudou muita coisa no mundo e pode também ser determinante nos resultados, de um modo que ninguém é capaz de prever.

A doença pode ter influência no percentual de abstenção, no perfil dos que vão comparecer, no humor do eleitor contra ou a favor dos governos e causará impacto no modo de fazer campanha, já que as aglomerações continuarão a ser contraindicadas.

Por enquanto é a eleição mais imprevisível desde 1996.

 

Glauco Wanderlei é jornalista e escritor