Imagine aí: um paciente de Feira de Santana, testado positivo para covid-19, sendo transferido para um Hospital de Campanha na Chapada Diamantina, mesmo tendo vaga de UTI em hospitais públicos da cidade. Parece piada, mas não é.

A situação é esdrúxula e suspeita, pois, além de expor o paciente a um risco desnecessário com o longo deslocamento, ainda tem uma torneira aberta, jorrando dinheiro público. As transferências, geralmente, são autorizadas pela Central Estadual de Regulação e muito bem pagas a empresas particulares. A suspeita é que esteja havendo "pulo" na regulação para favorecer essas empresas.

Segundo familiares de um paciente, uma dessas situações absurdas ocorreu no domingo (6). “Meu cunhado chegou domingo à noite na UPA do Clériston Andrade. Recebeu atendimento, porém, como a situação dele se agravou, eles decidiram regular para o Hospital da Chapada – em Itaberaba - e disseram que a conduta foi definida pela Central de Regulação do Estado. Disseram que não tinha vaga de UTI para covid em nenhum hospital daqui de Feira de Santana”, explica uma cunhada do paciente, que pediu para não ser identificada.

“Achamos um absurdo porque eles (da UPA) falaram que a única possibilidade seria essa. Minha irmã disse que se ela não tivesse chegado a tempo, eles teriam levado meu cunhado para Itaberaba”, relata, acrescentando que, inclusive, já havia uma UTI móvel de uma empresa particular de Salvador vindo a Feira para levar o paciente a Itaberaba.

“Eles não têm nenhuma consideração pelos familiares. Se a gente não ameaçasse chamar a imprensa, iriam continuar insistindo na conduta da transferência de meu cunhado. Que absurdo isso”, protesta.

PREÇO DA “PIADA” – O Protagonista apurou junto a uma empresa que fornece ambulâncias para este tipo de transporte, que o trajeto de uma UTI entre Feira de Santana e Salvador, por exemplo, custa cerca de R$ 3.300. O médico que acompanha o paciente no trajeto recebe cerca de R$ 600 a R$ 700, como pagamento pelo serviço prestado.

Caso haja necessidade de aplicação de medicação e intubação, o valor sobe para R$ 5.800. Aí o médico deve receber cerca de R$ 900 pelo serviço adicional. Muito dinheiro em jogo.

Os valores variam um pouco de uma empresa para outra. O detalhe, é que este dinheiro, em caso de pacientes do SUS - como do cunhado da denunciante - é pago pelo Estado.

HOSPITAL DE CAMPANHA DE FEIRA – O Protagonista manteve contato com o dr. Francisco Mota, diretor médico do Hospital de Campanha de Feira. Ele negou que a unidade tivesse recebido qualquer pedido da UPA do Clériston Andrade para internamento do paciente citado na reportagem.

NÚCLEO REGIONAL DE SAÚDE – Procurado pelo Protagonista, o coordenador do Núcleo Regional de Saúde (antiga Dires), Edy Gomes, deu a seguinte explicação para a situação: “Isto pode acontecer. Temos pacientes regulados da cidade de Cocos, por exemplo, para Salvador em UTI aérea em helicóptero. A Central de Regulação é quem define o local para onde o paciente será transferido.  Não acredito em irregularidade. Vaga em regulação é igual a concurso público: não há fila furada”, compara.

Questionado sobre o valor pago para o serviço prestado pelas ambulâncias particulares, Edy achou até pouco. “Este tipo de serviço custa entre R$ 4 e R$ 5 mil, o que considero pouco em relação ao custo diário da manutenção de um paciente em uma UTI, que é de R$ 12 mil”, destaca.