“Um mandato que não se resume ao gabinete”. Assim o vereador mais votado de Feira de Santana nas eleições municipais, com 8.292 votos, definiu como será sua atuação na Câmara Municipal a partir de janeiro de 2021. Jhonatas Monteiro (PSOL) em entrevista exclusiva ao Protagonista também fala sobre segundo turno.
O Protagonista - Como será a atuação do vereador Jhonatas Monteiro na Câmara?
Jhonatas Monteiro - A ideia básica é que o mandato recoloque no centro do debate público do município as necessidades de quem sente na pele a exploração, a opressão e a negação de direitos todo dia. Assim, o mandato é uma ferramenta para fazer as lutas que representem essas pessoas, mas também para mobilizar diversos setores sociais nesse processo. Na prática, isso quer dizer um mandato que não se resume ao gabinete, formado pelo vereador e assessoria, e mais ainda a um gabinete fechado ao povo como é o que acontece hoje na maioria dos casos. O sentido é uma atuação parlamentar que faça a escuta permanente da maioria da população feirense em sua diversidade, indo aos bairros e comunidades rurais, e também chamando as pessoas a pressionar diretamente a Câmara Municipal pelas decisões do seu interesse. Com isso, nossa expectativa é pautar os grandes problemas que tanto sofrimento trazem ao povo no cotidiano. Além disso, é importante recuperar a tarefa de fiscalização do que a prefeitura faz ou deixa de fazer. Essa é uma responsabilidade legal da vereança, mas o que predomina hoje é a conivência diante dos mal feitos do grupo político que controla a prefeitura há vinte anos. Toda essa atuação é fundamentada no nosso Programa de Mandato, documento que traz o conjunto de princípios e propostas, e que disponibilizei durante a campanha para que as pessoas soubessem qual é o nosso compromisso. Esse documento, além de explicar porque o nosso mandato é necessário, já indica trinta e um exemplos de propostas legislativas. São propostas que não esgotam as possibilidades de atuação parlamentar, até porque novas devem surgir no diálogo com vários setores sociais, mas é a orientação de partida para esses quatro anos de muito trabalho. 
O Protagonista - O PSOL apoia quem no segundo turno das eleições em Feira?
Jhonatas Monteiro - Primeiro, é importante o próprio fato de haver 2º turno em Feira de Santana, o que não ocorre desde 1996. Neste momento, isso abre possibilidades de um debate maior de caminhos para o município e isso interessa à maioria da população feirense em sua diversidade. Em segundo lugar, é óbvio que temos divergências com as duas forças políticas colocadas nessa disputa. Não à toa, já disputamos com candidatura própria contra essas mesmas forças em anos anteriores e também tivemos candidatura à prefeitura neste processo eleitoral – Com a nossa companheira Marcela Prest e o companheiro Phil Bala. Assim, temos diferenças bem demarcadas e públicas, mas mais que isso: o PSOL tem um projeto político próprio que oferece uma alternativa de democratização e popularização do governo municipal. Porém, e esse é um terceiro aspecto colocado, a eleição no segundo turno é “plebiscitária”, ou seja, a população vota a favor ou contra a continuidade de determinado projeto político. No caso da realidade feirense, é inegável que há um sentimento popular muito forte que acabou o tempo do grupo político que está no governo municipal ininterruptamente nesses vinte anos. São duas décadas de descompromisso social, corrupção e autoritarismo. Colbert Martins Filho é só a continuidade piorada disso – O esquema criado pelo ex-prefeito José Ronaldo. Por isso mesmo, é ponto pacífico para o PSOL o “Fora Colbert”. Em quarto lugar, mesmo com as divergências programáticas que temos com o PT e críticas à prática política de Zé Neto em particular, a leitura é que não tem cabimento suposta “neutralidade” ou omissão em um contexto nacional como o que vivemos – Marcado pelo risco representado por Bolsonaro e aliados locais. Porém, como quinto e último ponto, isso não é decisão individual: a militância do PSOL precisa de tempo para debater o assunto. Até porque não se ganha eleição apenas com declaração formal de apoio e, nesse caso, é importante discutir a forma de relação com a campanha. Assim, a direção executiva já fez uma discussão preliminar, mas tivemos Plenária aberta ao conjunto da militância nesta quinta-feira e faremos o anúncio da decisão em uma Coletiva Virtual de Imprensa convocada para este sábado (21). 
O Protagonista - Sua eleição foi surpresa?
Jhonatas Monteiro - A nossa expectativa era concretizar a eleição, embora o PSOL não tenha definido um número ideal de votos para isso. Havia o desafio do quociente eleitoral, o número mínimo de votos necessário para qualquer partido ocupar uma vaga na Câmara Municipal, mas também sabíamos que a mudança nas regras eleitorais criou outras possibilidades de eleger. Por outro lado, essa mesma modificação legal também levou a um aumento brutal do número de candidaturas à vereança em Feira. Entre outras coisas, isso acirrou muito a disputa por causa da fragmentação de votos. Isso, associado ao fortalecimento dos velhos esquemas de negociação de favores e compra de votos pelos outros partidos, tornou ainda mais complicada a disputa de vagas na Câmara Municipal. Contudo, o problema maior foi o próprio momento em que a disputa eleitoral ocorreu, marcado ainda pela pandemia de Covid-19. Isso tornou mais difícil fazer campanha como sempre fazemos: pé no chão, olho no olho e com diálogo franco através do corpo a corpo. Para vencer esses e outros obstáculos, foi necessário muito empenho da militância do PSOL e das milhares de outras pessoas que apoiaram a nossa candidatura. Felizmente, contamos com muita energia das ruas e redes para garantir uma ocupação verdadeiramente popular da Câmara. Sem dúvida, a nossa candidatura a vereador foi um ponto de encontro tanto da profunda insatisfação popular com esse espaço de poder quanto do reconhecimento do trabalho realizado pelo PSOL no município nos últimos anos.