Por: Guilherme Teixeira
No último sábado, 3 de janeiro, os Estados Unidos realizaram uma operação rara — e altamente simbólica — em território sul-americano. Entraram em um país soberano, capturaram o chefe de uma organização classificada como narcoterrorista e o conduziram para julgamento em solo norte-americano. Do ponto de vista militar, a missão foi precisa, rápida e eficaz. O alvo foi neutralizado sem escalada bélica. Mas operações desse tipo não se encerram no êxito tático. O verdadeiro impacto começa quando os helicópteros partem e o que resta é o vácuo político.
A experiência internacional mostra que remover lideranças centrais raramente resolve problemas estruturais. Quando se derruba a figura simbólica do poder sem desmontar o sistema que a sustenta, o resultado costuma ser previsível: endurecimento do regime, fechamento político e intensificação da repressão interna. Troca-se o rosto, preserva-se o método. O tabuleiro permanece intacto, apenas com novas peças ocupando as mesmas casas.
No caso venezuelano, o risco é ainda maior. Trata-se de um país estrategicamente sensível, assentado sobre um dos maiores reservatórios de petróleo do planeta e historicamente inserido no centro de disputas de influência internacional. O discurso anti-imperialista que sustenta o regime há anos sempre funcionou como instrumento de mobilização política e justificativa para o autoritarismo. Ao mesmo tempo, tornou-se impossível ignorar o grau de infiltração do narcotráfico e do crime organizado nas estruturas estatais, a ponto de o país operar, na prática, como um Estado capturado.
A nova variável que surge — segundo informações recentes — é a sinalização de que os Estados Unidos pretendem assumir um papel direto na administração da Venezuela até que se alcance um cenário de “estabilidade”, com a inserção de empresas petrolíferas americanas na exploração das riquezas locais. Ainda que apresentada sob o discurso da reconstrução e da normalização institucional, essa perspectiva lança uma sombra incômoda sobre toda a narrativa moral da operação. Quando o combate ao narcotráfico caminha lado a lado com a reorganização econômica estratégica, a linha entre intervenção e tutela se torna tênue — mas não necessariamente ilegítima.
É justamente aí que o dilema ganha contornos regionais mais complexos. Sob a ótica americana, a operação pode ser lida como um movimento coerente: enfraquecer um Estado dominado pelo crime transnacional, reorganizar fluxos estratégicos e evitar que a instabilidade continue irradiando seus efeitos pelo continente. Trata-se de uma lógica pragmática, discutível, mas clara. O problema não está apenas no gesto dos Estados Unidos, mas na forma como os países da região escolhem reagir a ele.
A posição do Brasil, contrária à operação sob um discurso pacifista quase automático, merece atenção especial. Defender soberania e não intervenção é um princípio respeitável, mas quando esse discurso ignora a realidade concreta de um Estado vizinho capturado por estruturas criminosas, ele deixa de ser prudência e passa a ser conveniência. Neutralidade, nesse contexto, não é isenção moral: é uma escolha política — e toda escolha tem consequências.
A evocação implícita da lógica da Doutrina Monroe não passa despercebida. A ideia de “América para os americanos” sempre prometeu estabilidade em troca de alinhamento. Pode-se criticar seus excessos, mas não se pode ignorar sua coerência estratégica. Ao se posicionar de forma quase reflexa contra a operação, o Brasil sinaliza, mais uma vez, dificuldade em ler o tabuleiro geopolítico sem recorrer a slogans.
A crise que se inicia não decorre necessariamente da ação americana, mas das respostas que ela provoca. Se os Estados Unidos conseguirão ou não estabilizar a Venezuela é uma incógnita legítima. O que já se pode afirmar é que, ao escolher um pacifismo retórico diante de um Estado corroído pelo narcotráfico, o Brasil corre o risco de repetir um erro histórico conhecido: o de confundir neutralidade com virtude e acabar, mais uma vez, do lado errado da história.