Um episódio ocorrido na tarde da última segunda-feira (20), em Feira de Santana, reacendeu o debate sobre os limites entre liberdade religiosa e o respeito às leis que coíbem a discriminação. O pastor Moisés Neri, de 55 anos, foi conduzido por policiais militares ao Complexo de Delegacias após ser acusado de praticar homofobia contra um funcionário do Hospital Geral Clériston Andrade (HGCA).
De acordo com o relato da vítima, o estudante de Direito Ismael Borges, de 20 anos, o religioso teria proferido declarações ofensivas durante atendimento na unidade hospitalar. Segundo o jovem, o pastor chegou a afirmar que iria “orar a Deus para tirar a homossexualidade do mundo”, além de associar a orientação sexual a algo negativo — falas que, conforme apontado, teriam sido repetidas inclusive na presença de um investigador da Polícia Civil.
Diante da situação, o funcionário acionou o posto policial existente no hospital, que solicitou apoio da Polícia Militar. O pastor foi encaminhado à Central de Flagrantes, no bairro Sobradinho, onde o caso passou a ser analisado pelas autoridades. A subtenente Alencar, da 67ª CIPM, acompanhou a ocorrência.
Defesa nega ofensas e aponta contexto religioso
Em contraponto, a defesa do pastor sustenta que não houve ataque direto à vítima. Os advogados Armênio Seixas e André Luiz afirmam que qualquer declaração feita por Moisés Neri ocorreu de forma genérica, dentro do contexto de pregação religiosa.
“Trata-se de uma acusação grave. O pastor relata que não fez nenhuma fala direta contra o funcionário. Caso tenha se expressado, foi de forma generalizada, dentro do contexto religioso que costuma pregar”, declarou Armênio Seixas.
Ainda segundo a defesa, o religioso é conhecido na cidade por realizar trabalhos de evangelização, inclusive em unidades de saúde. “Ele presta assistência espiritual a pacientes e estava no hospital justamente com esse propósito”, acrescentou.
Desdobramentos e implicações
O caso agora segue sob análise da autoridade policial, que deverá avaliar os elementos apresentados e definir a tipificação penal, além das medidas cabíveis. A Polícia Civil informou que dará continuidade às investigações, ouvindo os envolvidos e reunindo provas.
O episódio ganha relevância no cenário político e social local ao tocar em um tema sensível: a aplicação da legislação brasileira que equipara a homofobia ao crime de racismo. Em um momento de polarização ideológica no país, situações como essa tendem a ampliar o debate sobre até onde vai a liberdade de expressão — especialmente quando ela se cruza com direitos fundamentais e garantias individuais.
Enquanto isso, o pastor permanece negando as acusações e aguarda os próximos encaminhamentos do caso, que pode ter repercussões não apenas jurídicas, mas também políticas e sociais em Feira de Santana.
(Com informações de Sotero Filho - Blog Casos de Polícia)